Cláudio Tozzi | CRITICAS


"Escrevendo sobre a última fase de Cláudio Tozzi, no inicio do ano passado, afirmei que um dos equívocos da crítica brasileira é o de julga-lo unicamente por seus temas, quando, a rigor, mesmo em seus momentos considerados mais políticos e participantes, ele é um artista abstrato, ou melhor, ele é um construtor de imagens. Acrescentava que Tozzi não usa a imagem como mediadora, em seu aspecto referencial, mas a sua imagicidade. Trabalha com aquilo que constitui o subsolo da imagem - retícula, grão. Trata a imagem como um designer: isola, agiganta, congela, junta, repete, fragmenta, divide, soma, multiplica.

Em sua fase atual, Tozzi absorve e recria todo o universo da arte construtiva. Nos trabalhos aqui expostos existem referencias ao Cubismo, ao Futurismo (Boccioni, Russolo, Soffici, Balla, Severini), aos construtivistas russos e eslavos como Malevitch, El Lissitsky, Laszio Péri, Puni, etc. das escadas sobraram apenas as linhas que delimitam os degraus e que aparecem, malevitchianamente, atraídos para dentro e para fora do quadro. Em sua fuga, essas linhas liberam o espaço para novos arranjos.

Cláudio Tozzi, como Volpi, desconstruiu a fachada arquitetônica, escolhendo alguns detalhes signos para, com eles, reconstruir não mais o edifício figurativo, que desabou, mas a própria arquitetura imagística. Tendo alcançado a dureza do cristal mondrianesco (aquela barreira de edifícios, em primeiríssimo plano, sangrando as bordas da tela, como se fosse a cidade, ela mesma) deixa-o cair e se espatifar. Como as estilhas que espirram por todos os cantos da tela, chuva de meteoritos, Tozzi arma o novo caleidoscópio de sua pintura.

E nesse aprofundamento do filão construtivo, Tozzi, quem sabe, reencontra-se com suas raízes italianas e, como seus conterrâneos futuristas, rechassa o ângulo reto, monótono e apaixonado, multiplica as diagonais, os planos em obliqua, os arabescos dinâmicos, criando imagens polifônicas e polirítmicas. Cria aquilo que os futuristas definiram como um "complexo plástico", vários espaços a um só tempo, vários tempos num só espaço. Não quer captar mais um instante fixo da paisagem urbana, seus edifícios, mais sugerir o dinamismo que a envolve por dentro, criar um símile para a trepidante e frenética atividade da grande cidade, na qual está imerso. Daí o estilhaçar de formas que pouco a pouco vão se encontrando em uma nova organização visual, vibrante e envolvente. Um jardim de formas.

Estou convencido de que, passado à avalanche neo-expressionista, que serviu para arrancar a pintura de seu marasmo e de seu enfadonho intelectualismo, estamos entrando, de novo, em período construtivo.

Um construtivismo reciclado pela emoção, com uma componente lírica, corpórea. Estes trabalhos de Tozzi antecipam ou são o prenuncio desse novo período."

Frederico Morais
Crítico de Arte

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Cláudio Tozzi é de uma geração artística muito jovem, posterior ao concretismo e que está procurando emancipar-se das coisas geométricas. Você sofreu a influencia da arte geométrica, mas agora está tentando transformar essa arte numa coisa mais vibrante, mais sensorial. Aliás, esse processo foi um pouco do que se deu internacionalmente. Depois do abstracionismo geométrico os artistas passaram para o expressionismo abstrato, uma retomada de Monet, procurando a cor como energia. Você está buscando uma síntese do expressionismo abstrato e da construção geométrica, que pode ser uma tentativa de sintetizar grande parte do século XX.

O processo de criatividade combina elementos de ação consciente e elementos de ação consciente e elementos de ação inconsciente. Isso deve ter sido sempre conhecido. Homero dizia que nada do que ele escrevia era da tua cabeça. Tudo era transmitido pela Musa. A musa era o inconsciente. No século XIX, o matemático e físico francês Poincaré sistematizou a descoberta matemática, que tinha processos conscientes e inconscientes, daí nasceu uma concepção geral da criatividade, uma combinação complexa de elementos consciente e inconsciente. Quando o artista olha para o seu próprio quadro ele o faz condicionado pela sua personalidade. Outra pessoa olha o quadro e vê outra coisa, diferente. Há uma riqueza muito grande de situações, um quadro pode ser interpretado de muitas maneiras diferentes. Uma geração vê a arte de uma determinada maneira, a geração seguinte vê de outra. A arte, a partir de um determinado momento, se torna independente do artista, tem sua própria história.

Mário Schenberg

Crítico de Arte

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Dentro de uma dialética entre figura e abstração, a atual fase é justamente uma síntese, uma tentativa se superposição das duas vertentes sem que elas briguem entre si. Os quadros atuais derivam das escadarias e recortes que Tozzi apresentou há um ano e pouco, e conservam, das escadas, os ângulos, zig-zags, as sugestões de diferentes planos que se sucedem na perspectiva da tela. Mas tudo está diluído, quase caracterizado, por uma cerrada trama pictórica.

A pintura é, pois, figurativa em sua gênese, e pode ser entendida assim. Mas o resultados puramente visual tende a ser lido de maneira abstrata; o que realmente interessa a Tozzi, nesta altura, é um festivo cromatismo em composições intensas e dinâmicas, que às vezes lembram efeitos da optical art. Como nesta, a presente pintura de Tozzi está empenhada em estimular, gratificar e brincar com a percepção do espectador. Em que quase a severidade construtiva que está por trás de tudo (e não temos por que fugir à temível palavra: trata-se de uma arte essencialmente geométrica), há jogo e prazer em tudo isso. Tozzi esta sem dúvida alegre em sua presente produção. E essa alegria roça, muito de leve, e pela primeira vez em toda obra, até por uma certa tendência ao amoroso e sensual.

O que nos interessa mais é ver e situar a produção de Cláudio Tozzi, em 1986, dentro de uma linha de trabalho que é respeitável e sólida dentro da arte brasileira. Pondo de parte as especificações no momento, o que aqui reencontramos é um artista que constrói com a cabeça seu projeto, e se fila deliberadamente à família dos criadores que pretendem alcançar valores plásticos permanentes e estáveis. Tozzi - que, neste instante da obra, está atemático (as escadas são só abstratos) - sabe que a arte sobrevive estética e historicamente não pelo que conta, por seu assunto, mas sim pela maneira e competência com que a forma se concretiza e é tratada.

Olívio Tavares de Araújo
Crítico de Arte