Roberto Magalhães | CRÍTICAS


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"O que hoje Roberto Magalhães oferece como pinturas são delicadas surpresas visuais, licenças poéticas com cenas do cotidiano e mudanças na escala do mundo. Há uma doce ironia e uma nostálgica reflexão sobre o poder e a força, sobre as leis do universo e sobre a hierarquia das formas - pois o que mais lhe dá prazer é inverter as regras e as normas de representação da natureza. (...) Nos trabalhos mais recentes, ele deixou de lado o caráter alegórico de suas cenas para concentrar-se em cabeças humanas ou em cenas de um fantástico cotidiano. Suas casas se retorcem, flores e bichos ganham uma estranha aparência, as descrições da mais banal atividade crescem para uma outra dimensão. O que lhe confere uma dimensão de artista excepcional é que as suas escolhas são muito precisas. As personagens se deformam como em vinhetas antigas, estão cercadas de elementos alucinantes, mas toda essa parafernália é rigidamente controlada. Existe uma organização geométrica do espaço e a alteração das leis da visão com a segurança de quem sabe exatamente o que pretende causar. Graças a esse controle é que Roberto Magalhães conseguiu, ao longo de 25 anos de trabalho, manter-se ao largo de uma filiação ou de uma identidade com uma tendência artística qualquer. (...)"

Casimiro Xavier de Mendonça

Arte
Na zona-limite


As máscaras rituais, as figuras totêmicas das tribos primitivas são expressões da insegurança do homem em face de um universo que ele não domina. A insegurança é de cada um, mas, assimilada à mitologia e às práticas mágicas da comunidade, ela se objetiva como expressão cultural que não leve ninguém ao hospício, instituição, aliás, inexistente, por desnecessária, em tal tipo de comunidade.

Nas sociedades modernas, de onde a ciência e a tecnologia espantaram os demônios, nasceu uma mitologia vulgar e comercial que não assimila, mas, antes, repele as experiências profundas do indivíduo: resta aos inassimiláveis o caminho da rebeldia, da loucura e da arte. Para uns existe a polícia, para outros o manicômio e para os artistas... Bem, para os artistas existem os prêmios e o mercado de arte.

O mercado de arte impõe suas leis, sendo uma delas a exigência da novidade. A burocratização da vida e a mistificação da ciência tendem a desmoralizar no homem a capacidade de conhecer o mundo por si mesmo: a sensibilidade, a intuição, a fantasia. A própria arte, refúgio desses resíduos primitivos de humanidade, tende frequentemente a também dissolvê-los em teorias “científicas” e práticas racionalmente controladas. À medida que o cerco aperta o artista ou se rende ou mergulha em seus abismos insondáveis. Onde às vezes se perde, e às vezes não. Roberto Magalhães é um dos raros habitantes dessa zona limite e por isso mesmo a sua arte mantém parentesco com a expressão daqueles que se situam fora ou à margem do sistema: as crianças, os povos primitivos e os loucos.

Chamá-lo de desenhista, pintor – e ele é e dos melhores desse país – não basta para defini-lo. Mais que isso, ele é um perscrutador dos enigmas e arcanos do mundo, de cuja aparência duvida e cujas leis objetivas procura contrariar.

Falar de “desvarios” a propósito desse inventor de monstros e demônios não é muito apropriado. Na verdade, suas espantosas figuras são construídas com transparente tranqüilidade, com capricho e até mesmo com lirismo, num prazer extravagante que as torna ainda mais insólitas.

Magalhães não parece movido pela necessidade urgente de liberar fantasmas e demônios interiores, mas, ao contrário, pela necessidade de tê-los materializados, aqui fora, para o convívio cotidiano.

São monstros e demônios de contornos melódicos e colorido fascinante, sortilégios esses de que se valem para nos enfeitiçar e se instalarem definitivamente em nossa vida. A arte apurada do desenhista, do pintor, vence o repúdio natural que tais seres nos despertariam.

É dessa arte que nos cabe falar: se desvario, um desvario domado: o métier da alucinação. O rimbaudiano desregramento metódico dos sentidos. A realidade é deformada paulatinamente, de maneira implacável, mas controlada. O corpo da figura é deformado, mas até um limite preciso, além do qual se romperia o equilíbrio, e esse cuidado acentua a violência do artista contra o mundo objetivo, cujos limites ele deliberadamente força e subverte. Isso equivale a dizer que ele busca ultrapassar os seus próprios limites e se, nesse exercício perigoso, não desliza definitivamente para “o outro lado”, é graças ao domínio que exerce sobre os seus meios de expressão. A arte de Roberto Magalhães é o escafandro que lhe permite descer a profundidades irrespiráveis.

É uma arte sensível e sem regras: uma forma de liberdade. As técnicas variam – o lápis-de-cor, o bico-de-pena, a aquarela, a litografia, a xilogravura, a pintura a óleo – e o estilo também, e às vezes no mesmo quadro. Nenhum compromisso, a não ser com a própria fantasia que usa o artista, a sua mão, seu métier, para realizar-se. Uma fantasia ardente, de visionário, que nada concede ao cotidiano, que tudo cobre com sua lava fosforescente e que se traduz num código de linhas, de manchas e cores de desconcertante precisão.

Ferreira Gullar