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Escada é um pequeno município
distante 53 quilômetros de Recife. O engenho Jundya, hoje inativo, como
tantos outros espalhados pela zona da mata, desempenhou papel muito
importante no desenvolvimento da economia regional pernambucana. Nele nasceu
Cícero dos Santos Dias em 05 de mArço de 1907, sétimo filho de Pedro dos
Santos Dias e Maria Gentil de Barros Dias. Seus pais tiveram mas dez filhos:
Antônio, Manuel, José, Maria de Lourdes, Pedro, Feliciana, João, Maria,
Mário e Rômulo. Cícero é neto do barão de Contendas pelo lado materno. Em
Usina (1936) o escritor José Lins do Rego descreve os hábitos e costumes da
família de engenho. O espelho para esse livro é a família Santos Dias.
A infância de Cícero foi
semelhante a de qualquer menino de engenho, com banhos ruidosos, proibidos,
as brincadeiras e traquinagens, a presença do cangaço, as visitas aos
engenhos vizinhos, a enchente, a escola, a professora, as primeiras letras,
as lições de sexo... Naquela época os senhores de engenho abandonavam em
desleixo os filhos, não se importando com a infância. Depois recorriam ao
colégio para corrigi-los. Cícero não fugiu a essa regra. Viveu seus
primeiros anos pelos engenhos do interior de Pernambuco.
"Eu vivi... intensivamente
tudo. Por exemplo: onde nós estamos aqui, onde é o Hotel Boa Viagem, eu
tenho a impressão que foi a primeira vez que eu vi o mar, porque as famílias
se transportavam dos engenhos para as praias. Primeiro fui para Gaibu e
depois Boa Viagem. Eu tenho a impressão que a primeira vez que vi o mar,
tenho certeza, foi aqui em Boa Viagem, porque tinha o trenzinho de burro que
saía da estação de Boa Viagem e trazia os passageiros p'ra orla marítima."
O mar e a lua são elementos
constantes na pintura de Cícero, bem como as lembranças que guarda de tia
Angelina e da velha avó, em seu sobrado grande e antigo onde ele passa a
residir para terminar o curso primário, já que a escolinha do engenho só
alfabetizava os seus alunos.
Nessas recordações, ocupa um espaço grande a babá Maria Bernarda da Silva e
seus quitutes. Ela, por sua vez, considerava o garoto como sossegado e bom.
Vivia cortando papel, pintando coisas, sonhando...
Em 1920, aos 13 anos de idade,
Cícero foi para o Rio de Janeiro, ficando interno no mosteiro de São Bento.
Nessa época, alimentado pela leitura precoce e intensiva, desenvolve-se o
traço mais marcante de sua formação: a imaginação criativa.
Entre os anos de 1925 a 1927
Cícero conheceu os modernistas. José Lins do Rego descreveu os velhos tempos
no Rio, numa crônica entitulada “Cícero Dias em 29”, escrita em 1952: a casa
de dona Nazareth Prado, o velho Graça Aranha, Jayme Ovale e Anibal Machado
inéditos, Manuel Bandeira na rua Curvelo, Murilo Mendes ainda na fase
satânica, Di Cavalcanti querendo salvar a humanidade e os restos do
futurismo na poesia, as querelas da Semana de Arte dividindo a literatura,
João Ribeiro aceitando os novos.
Foi então que apareceu Cícero
Dias. Era um menino de engenho com a loucura da arte. Seus trabalhos
revelavam o mundo estranho dos canaviais, das paixões furiosas, dos sonhos
que eram verdadeiros incêndios dos sentidos.
Em 1928 realizou sua primeira
exposição no Rio de Janeiro. A mostra aconteceu paralela ao 1º Congresso de
Psicanálise da América Latina. Arte e sonhos falam do/e ao inconsciente.
Graça Aranha ao afirmar o quanto os quadros do pintor combinavam com o
congresso, provavelmente, não percebeu a dupla conotação de suas palavras.
Por outro lado não é o inconsciente quem pinta, a intervenção da ação
refletida é fundamental para a produção de qualquer forma de arte, e as
imagens oníricas são consideradas como a melhor expressão possível dos fatos
ainda inconscientes. Graça Aranha ressaltou ainda que se tratava da primeira
manifestação do surrealismo no Brasil, concluindo que "o artista com suas
extraordinárias qualidades pictóricas, exprime em seu trabalho a poesia
deliciosa de seu estranho e maravilhoso inconsciente."
Nem todos entenderam os
trabalhos expostos. Um senhor que comprovadamente não gostou deles, tentou
destruí-los com uma navalha.
A maior parte de sua obra, nesse
período, é composta de desenhos e aquarelas, onde ele obtém uma leveza, uma
delicadeza de efeito, que a pintura a óleo não consegue dar.
Inicialmente um simbolismo explícito e inequívoco sobrepõe-se à técnica de
elaboração exata e minuciosa.
A visão da mulher como objeto
sexual insinuada em alguns trabalhos reflete a plena expressão do pensamento
da época. Esse tratamento é dado à Sonho de uma prostituta. O desenho de
linha fluida e livre revela a sexualidade relaxada e provocativa de uma moça
cuja disponibilidade tem um paralelo com a Olympia de Edouard Manet. Essa
impressão não provém do título e sim da expressão pictórica. Dias e Manet
usam na elaboração do espaço plástico o recurso da perspectiva cromática,
cujas características são o espaço plano e a linha recorte, dando aos
quadros uma grande tactilidade.
Nessa primeira fase o pintor
mergulhou fundo em busca da realidade interior do homem transitando entre o
real e o imaginário à procura de um estilo próprio, adotando certas
preocupações comuns ao surrealismo.
Suas figuras flutuam no espaço,
enquanto as casas e a linha do horizonte assumem inesperadas posições.
Nesses desenhos as imagens fundem-se. Existe uma ruptura com o ponto de fuga
e o espaço está fragmentado em segmentos visuais.
Sua produção desse período está
composta de figuras com elementos díspares retiradas de lugares comuns e
tradicionais. A alteração da aparência real dos objetos e do corpo humano é
uma tentativa de arrancar o observador de sua complacente confiança na
realidade.
As distorções por ele realizadas
alcançam seu grau mais extremo. Cícero Dias ao transpor os limites da
existência demarcados pelo hábito e frieza da razão, desloca-se em direção
ao mundo do inconsciente e do sonho, deixando-se conduzir pelos olhos da
imaginação. O artista exibe uma abundância de imagens e revela uma espécie
de diário poético em que o individual e o coletivo estão entremeados.
Existe, ainda, o colorido suave e harmonioso adaptado à sua índole pessoal,
e, no qual, o verde encontra-se sempre presente.
A partir de 1932, Cícero voltou
ao seu estado natal. Sua permanência em Recife transformou-se em um momento
de íntima relação com a sua terra e seu povo. Com Gilberto Freyre relembrou
o seu passado de menino criado em engenho. O sociólogo falou-me de suas
andanças com o pintor pelos engenhos e senzalas de todo o estado por quase
um ano, em busca de material para sua obra Casa Grande & Senzala , editada
em 1933, com desenhos executados por Cícero Dias.
Em relação a temática, a nova
inclinação liga-se à tradição pernambucana com a paisagem rural
alternando-se à paisagem urbana de Recife e Olinda , identificada nos
quadros da coleção do Museu do Estado de Pernambuco. Realiza perfeitamente
seu sentido de cor nessas telas, destacando-se a preferência pela simetria e
por formas geométricas estilizadas. A maioria das composições baseia-se na
forma triangular tradicional, criando uma aparência de repouso concentrado,
evidenciando o quanto a excessiva excitabilidade dos primeiros tempos está
disciplinada e controlada. Em 1938, Cícero Dias realizou suas primeiras
exposições em Paris. Os trabalhos apresentados são a síntese de uma fase
definitivamente encerrada. Ele está na cidade à procura de novos rumos.
Naquele momento entrou em contato direto com as obras dos artistas da Escola
de Paris. O encontro causou no jovem pintor brasileiro um impacto muito
grande, o que não é difícil de perceber observando-se os quadros produzidos
no princípio da década de 40, dentre eles: Mulher na Praia e Mulher sentada
com espelho, bem como as fontes em que o artista se inspirou.O protótipo
mais próximo dessas composições são as obras de Pablo Picasso.
No entanto, ainda mais
importante, do ponto de vista para seu subseqüente desenvolvimento como
artista, é o passo seguinte, levando-o à abstração absoluta no final dos
anos 40. Abstração preparada desde 1932, com uma série de aquarelas com
desenhos abstratos e predomínio de amarelos e vermelhos: manchas de traços e
cores jorram, literalmente, nesses trabalhos. No período compreendido entre
1938 e 1948, tendo como paradigmas Mulher na Janela e Composição sem título
aconteceu um progressivo abandono, uma prudente caminhada em direção ao
abstracionismo.
Na década de 30 há uma oposição
clara entre surrealismo e abstracionismo conduzindo à dissociação aparente
entre abstração e inconsciente. Ao longo de sua evolução, a arte abstrata
compreende que o campo do inconsciente é ilimitado e avança em direção a uma
pintura mais livre.
Em 1945, ao juntar-se ao grupo
Espace, Cícero Dias tenta dominar o inconsciente — essa região tão pouco
clara e poderosa — na qual se manifesta, além do material artístico, todas
as atividades culturais do homem. Dessa maneira, procedeu a um retorno ao
passado recente da pintura abstrata e a estética dos anos 30, adotando em
primeiro lugar a forma geométrica. Essa concepção de pintura torna-se comum
na França , após a segunda grande guerra, encontrando-se em plena expansão.
No ano seguinte, expôs os trabalhos produzidos naquele período na Exposition
Internationale d'Art Moderne, no Museu de Arte Moderna de Paris. Graças ao
seu talento de colorista, o pintor conseguiu ultrapassar a frieza da
tendência geométrica. A parte luminosa de suas telas tem como cor
fundamental o vermelho/laranja, enquanto a parte escura tem como cor
dominante o azul. Essa unidade harmônica é dada pelo contraste do acorde
azul-verde/vermelho-laranja, característica pessoal de Cícero Dias, e denota
o possível contato do artista com a teoria de cores de Goethe e com os
escritos de André Lhote. O rigor formal dessa abstração vai diluindo-se
progressivamente na década de 50 e, aos poucos, abandonou as formas
rigorosas e passou para o abstracionismo informal.
No início dos anos 60, Cícero
pintou diversas telas com retratos de mulheres. Apesar da aparência pouco
natural, o retrato guarda profunda identidade com o modelo. Tendo se
familiarizado com um repertório de configurações abstratas, e sob a
influência da arte tradicional, começou a construir suas imagens à base de
formas e figuras que, vistas isoladamente, não teriam função ou significado
preciso. Da maneira como estão dispostas, no entanto, adquirem valor
representativo: dois círculos podem ser vistos como dois seios. O pintor
desligava-se da abstração, convicto de que seu caminho era, novamente, a
figuração. E ao invés de sígnos da figura feminina, sua preocupação
voltou-se para a própria imagem da mulher.
Desde o princípio a mulher aparece
nas pinturas e desenhos de Cícero Dias, simultaneamente como foco de desejo,
frustração, conflito, humor, ironia. Mulher em mutação e constantemente
presente , assumindo formas significativas retomadas pelo pintor em todas as
variações.
Atualmente as figuras são
submetidas a uma simplificação geométrica que lembra o cubismo de Braque e
Picasso, mas a construção da superfície é feita com a cor, uma das lições
básicas de Cézanne. Permanece vinculado à disciplina geométrica, seja na
busca do plano, seja na integração figura/fundo. Os contrastes são mínimos,
o que deixa a composição quase nos estritos limites bidimensionais.
Essas composições são uma
mistura de mar, céu, sol, lua, folhagens, praias, barcos, pescadores,
mulheres, flores. Os quadros revelam a sensibilidade do criador a temas
amplos e a problemas puramente artísticos. A exuberância de cores, o humor,
a poesia que o pintor transmite, são reflexos da fase feliz que atravessa em
sua vida particular.
Cícero Dias faz uso insistente
de alguns tópicos tradicionais da pintura, como os braços estendidos para o
alto com as mãos abertas. Há um sentimento recluso de intimidade, de duração
lenta, de silêncio. Os problemas da forma e da composição constituem a
preocupação essencial do artista. Essa última fase deixa de ser criação
direta como em seus primeiros trabalhos. Mesmo assim, a pintura de Cícero
Dias guarda sempre uma extraordinária modernidade. Vive de uma permuta entre
o presente e o passado. Essa
figuração que povoa suas telas recentes são imagens reais e anteriores,
vistas agora através do poético cristal da memória. Imagens muitas vezes
fusão de outras, já vividas e imaginadas e que ressurgem agora livremente
pintadas. Sua produção artística possui a força, a surpresa e a amplitude
emocional não encontradas na maioria dos pintores brasileiros
contemporâneos, pois a arte do século XX sofreu uma retração de imaginação
por pressões de fórmulas. |